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The Sims 4 Ajudou a Lidar com Minha Depressão e Infertilidade

Enfrentar infertilidade, depressão e o desemprego ao mesmo tempo não era fácil, então me voltei para um vídeo-game.

Há um tempo atrás, o Vice compartilhou um artigo bastante interessante contando a história de uma mulher chamada Patricia Grisafi, que graças ao The Sims, conseguiu lidar melhor com seus problemas de depressão, infertilidade e desemprego.

The Sims 4 Ajudou a Lidar com Minha Depressão e Infertilidade

O exame de gravidez deu negativo de novo. Fiz xixi em outro teste só para ter certeza. Aí me servi dois dedos de uísque, deitei no chão da cozinha e chorei.

Aos 34 anos, minha vida não ia bem: foquei demais na educação e acabei desempregada depois de oito anos de formação e dando aulas. Deixei um rastro insignificante de publicações acadêmica no caminho. Ao mesmo tempo, só rolava aborto espontâneo atrás de aborto e a ideia de tratamentos para fertilidade pairava cada vez mais na minha mente. Minha depressão e ansiedade eram controladas por remédios, fazia terapia semanal e até praticava uma ioga não muito empolgante. Era normal para o meu marido chegar em casa do trabalho todo dia e me encontrar deitada no sofá, num suéter coberto de pelos de cachorro e com a CNN passando ao fundo.

“Trish, talvez você devesse se esforçar um pouco mais para conseguir um emprego?”, ele sugeria gentilmente.

O verão seguia. Eu acordava cada vez mais tarde. Minhas manhãs se tornaram tardes. Minhas tardes se tornaram um exercício de encarar a tela do computador como se ele fosse espontaneamente me arranjar um emprego ou curar meu medo existencial.

Em vez disso, ele me oferecia The Sims 4: Vida na Cidade.

“Você só joga The Sims quando está à beira de um ataque nervoso”, meu marido disse, enquanto eu contava sobre o novo pacote de expansão que tinha saído para o popular jogo de simulação de vida lançado no ano anterior.

“Que isso, amor! Estou ótima!”

The Sims 4 Ajudou a Lidar Depressão Infertilidade
Patricia Grisafi e seu Marido.

Naquela noite, baixei The Sims 4: Vida na Cidade e fiquei acordada até 3 da madrugada, lançando a carreira da minha Sim como escritora, decorando seu apartamento chique com vasos de plantas e tapetes persas e – mais importante – a engravidando.

Em San Myshuno, a metrópole urbana do jogo, uma versão mais bonita de mim vagava sem esforço por seu mundo cuidadosamente cultivado. Ela digitava num notebook novinho, escrevendo contos, livros de não-ficção e coleções de poesia com um único clique na caixa de correio, que te deixava publicar diretamente no mundo. Ela se tornou uma crítica de arte em poucas horas.

Além de ter sucesso profissional, minha Sim também era extremamente fértil e ficou grávida de gêmeos na primeira tentativa. Nicholas e Nathaniel eram dois gêniozinhos que viviam perguntando sobre o mundo ao seu redor. Eles dormiam em camas de carros de corrida e tinham uma casa de bonecas, para não caírem em esteriótipos tóxicos de gênero.

Eu poderia ter parado nessa família, mas não. Fiz outra. E depois outra. E muitas outras. Povoei toda a paisagem virtual.

Em The Sim: 4, engravidar e dar à luz é fácil. Seu Sim só precisa achar um parceiro, acumular sentimentos de amizade e românticos o suficiente com ele e clicar em “Tentar ter um bebê”. Depois disso, o Sim pode fazer xixi num exame de gravidez e descobrir que está “comendo por dois”. Tinha até cheat codes para influenciar o sexo ou produzir vários bebês de uma vez: sua Sim podia comer morangos e ouvir música pop se você queria uma menina; cenouras e música alternativa se queria um menino. Não havia abortos, testes sanguíneos, ultrassons ou surpresas desagradáveis.

Logo, minha cidade de San Myshumo estava cheia de pessoas parecidas, com personalidades, carreiras e famílias similares: esposa criativa, marido lógico, um ou dois filhos para encorporar a personalidade dos pais, usar roupas fofas e decorar seus quartos com cristais, cartazes de filmes de terror e pôsteres de jogadoras de futebol feminino.

O que acontece quando o simulacro supera o original?

Meus Sims sempre tinham as últimas atualizações de casas, as geladeiras sempre abastecidas de romãs. Eles sempre visitavam o Spice Festival, a versão de uma feira de rua de San Myshuno, e cruzavam uns com os outros num mundo povoado por pequenas cópias.

Um simulacro é um substituto tosco ou uma imitação, uma imagem copiada do real. Mas o que acontece quando o simulacro supera o original? Meus Sims estavam todos prosperando, ganhando dinheiro, tendo filhos, se aventurando com paletas de cores e tomando banho entre nuvens de cheiro. Enquanto isso, eu afundava na indiferença e desesperança, comecei a não dar mais atenção para a higiene pessoal e cultivei um rancor por todos os trabalhadores remunerados e férteis.

Eu já estava na minha 11ª família Sim idêntica quando ficou aparente que esse desvio para uma realidade alternativa estava me deixando ainda mais deprimida. Eu estava mal-humorada e cansada, meus olhos ardiam e eu estava sempre arrumando brigas com amigos. Até mandei screenshots do Sim do meu marido acariciando a barriga grávida da minha Sim para ele. Mais tarde, ele me contou que chorou no trabalho ao ver a imagem: parecia que eu queria torturar ele.

Escapismo pode ser saudável e ajudar na cura; é um alívio esvaziar sua consciência e recuar temporariamente para outra realidade, particularmente quando a vida está se tornando estressante. Mas às vezes esse escapismo, especialmente quando você escapa para mundos alternativos virtuais, contribui com o problema.

Dando replay na minha vida de fantasia de novo e de novo – conseguindo o trabalho dos sonhos, engravidando – eu estava evitando tomar os passos necessários, chatos e potencialmente dolorosos para ter um emprego e uma gravidez na vida real. Eu estava irritada porque minha carreira estava em declínio. Eu estava traumatizada depois de três abortos e tinha medo de futuros problemas reprodutivos. Rejeitando a possibilidade de fracasso ou do desconhecido, eu estava me protegendo.

Todo mundo já ouviu o clichê bizarro do gamer obcecado que se recusa a parar para ir ao banheiro. Eu já tinha testemunhado meu marido e seus amigos passarem horas jogando Magic: The Gathering online. E quando Dragon Age: Inquisition saiu, tirei boa parte do meu dia para conseguir a adaga Língua do Dragão e lutar contra assassinos arlequins.

Mas ignorar completamente sua vida em favor de uma vida de mentira? Já parecia patológico.

The Sims 4 Ajudou a Lidar Depressão Infertilidade
Minha comunidade no The Sims 4.

Comecei a ler histórias de pais negligenciando os filhos para ver os piores casos possíveis. A primeira fatalidade documentada por vício em videogames aconteceu em 2009, quando um casal sul-coreano deixou a filha de três meses morrer de desnutrição enquanto eles cuidavam de um bebê virtual no jogo Prius. Em 2014, um casal de Anaheim, Califórnia, negligenciou duas meninas sob seus cuidados para jogar World of Warcraft. Segundo o Los Angeles Times: “os investigadores encontraram utensílios de cozinha ‘cobertos de mofo e teias de aranha’, pilhas de lixo, mofo e fezes pela casa, uma pilha de camisinhas usadas embaixo de um urso de pelúcia e privadas quebradas”.

Decidi parar de jogar The Sims. Comecei a mandar meu currículo para potenciais empregadores. Tomei minha primeira rodada de Clomid, uma droga para induzir a ovulação. Eu acordava toda manhã para fazer exame de sangue e inspecionar meu útero em busca de óvulos maduros. Um dia antes da minha primeira inseminação intrauterina, meu marido e eu nos encontramos com a turma para assistir Game of Thrones. Todo mundo sabia sobre nossa consulta e nos desejou boa sorte.

“Gente, vocês podem fazer uma coisa por mim?”, perguntei timidamente, tirando uma caixa de morangos tristes da geladeira. “Sei que é idiotice, mas em The Sims você tem mais chances de ter menina se comer morangos e ouvir música pop. Vocês querem dividir esses morangos comigo e ouvir Britney Spears?”

Cada amigo pegou um morango e começou a dançar ridiculamente, como se estivéssemos fazendo um estranho ritual de fertilidade. E acho que estávamos. Mas e daí? Pelo menos era real.

Fonte
Vice Brasil
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SimsTime

Depois de surfar uma onda de plumbobs e conversar com uma lhama no ShangSimla, este que vos fala está mais do que preparado para mantê-los informados sobre todas as novidades do mundo Simmer.

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